ARTES PLÁSTICAS Pintura de Ana Machado 11 TAUMATURGIAS
I ISABEL BOTELHO MONIZRaras são as ocasiões de nos confrontarmos com a taumaturgia. Essa faculdade inquietante e indecifrável de produzir o milagre, averbada nas hagiografias e nas obras dos grandes artistas, tende a rarefazer-se num mundo em que o imperativo da razão prevalece sobre o poder de encantamento.
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No domínio artístico, a nossa sociedade procurou reduzir a transcendência da criação à imanência das escolas e dos experimentalismos, no intuito paroxístico de tudo explicar e catalogar. Obras há, porém, que permanecerão sempre à margem desse rastreio, pois nelas o inominável é um atributo do divino. Talvez o poder de comunicar com os deuses, hipostasiado nas obras de alguns artistas para quem a criação é, necessa-riamente, uma missão ou um chamamento, não esteja irremediavelmente perdido. Encontramo-lo ocasionalmente, no cruzar da esquina da demissão existencial, deixamo-nos surpreender pela sua força encantatória. |
Como nesta exposição de Ana Machado que, muito apropriadamente, se intitula "11 Taumaturgias". A obra desta pintora pode ser entendida como uma exaltação da energia primordial que ordenou o caos, um cântico ao acto de criação, tema de fundo dos seus óleos sobre tela. Numa primeira leitura, todos os elementos temáticos, mesmo quando não explicitamente telúricos, recolhem na natureza a sua raiz matricial. Mas este aproveitamento estético não se esgota na representação simbólica de um motivo. O que por último se procura é a síntese metafísica, o sentido ecuménico da própria criação. |
Na sua pintura, Ana Machado conseguiu essa síntese, servindo-se da extraordinária mestria com que trabalha os materiais, as formas e as cores. Os seus trabalhos devem ser lidos como um poema, escutados como uma melodia, olhados como a marca indelével do desígnio dos deuses. Esta exposição foi organizada pela Secção de Cultura Portuguesa. Ana Machado 11 a 24 de Novembro de 1993 |
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