Harold.JPG (25663 bytes) Vita.JPG (27247 bytes)

 

Retrato de um Casamento

"(...) Different though the sexes are, they intermix. In every human being a vacillation from one sex to the other takes place, and often it is only the clothes that keep the male or female likeness, while underneath the sex is the very opposite of what it is above."

Virginia Woolf, Orlando

 

ISABEL BOTELHO MONIZ

Há escritores que devem a posteridade não ao fulgor de uma obra, mas à contingência de uma biografia. Um caso paradigmático é o de Vita Sackville-West (1892-1962), poeta e romancista inglesa que deixou publicados mais de cinquenta títulos, alguns dos quais foram best-sellers na época. A sua notoriedade actual resulta, porém, da denúncia de uma faceta da sua personalidade que, curiosamente, está ausente de toda a sua obra: a homossexualidade.

O boom mediático em torno da vida da escritora foi inaugurado pelo próprio filho, Nigel Nicolson, com a publicação de Portrait of a Mariage (1), um panegírico da cumplicidade marital que uniu durante sessenta anos Vita Sackville-West e Harold Nicolson, também ele escritor e homossexual. Na origem do livro está um manuscrito inédito encontrado após a morte da escritora, que Nigel Nicolson classifica como um documento único no vasto panorama da literatura amorosa: a confissão exutória do amor de Vita Sackville-West por outra mulher, a escritora Violet Trefusis. Este período atribulado da vida sentimental de Vita, decorrido entre 1918 e 1921, será depois profusamente documentado na edição das cartas de Violet Trefusis a Vita Sackville-West (2), bem como nas biografias "autorizadas" das duas escritoras (3).

Do ponto de vista literário, o interessedo livro é questionável, mas não o é o seu valor documental. Portrait of a Mariage é uma análise contundente da bissexualidade num contexto onde ela é, em si, uma subversão canónica, a instituição do casamento.

 

 

Não devemos esquecer o espaço e o tempo em que estão inseridos os protagonistas, a aristocracia inglesa georgiana, uma época em que na consciência colectiva ainda subsistiam os ditames da moral vitoriana e se esboçava a linha programática da ruptura com esses mesmos preceitos que irá ser definida (e personificada) por vários grupos de intelectuais, nomeadamente o de Bloomsbury, ao qual pertenceram Leonard e Virginia Woolf, com quem Vita Sackville-West e Harold Nicolson se irão intimamente relacionar.

Portrait of a Mariage é o testemunho de que o casamento e a bissexualidade, quando conciliáveis, são uma homossexualidade a dois. O ideário do casamento, tal como Vita Sackville-West e Harold Nicolson o concebem, está averbado no questionamento contumaz das relações claustrofóbicas que nele se geram. O que, em suma, é verdadeiramente posto em causa é um dos princípios que regem o casamento, o dever de fidelidade recíproca. Para os dois escritores esta "fidelidade" não é comprometida quando a relação marital assenta na aceitação do direito inalienável à diferença.

"(...) If you were in love with another woman, or I with another man, we should both or either of us be finding a natural sexual fulfillment wich would inevitabily rob our own relationship of something. As it is, the liaisons wich you and I contract are something perfectly apart from the more natural and normal attitudes we have towards each other, and therefore don't interfere. But it would be dangerous for ordinary people..."

(Excerto de uma carta de V. Sackville-West a H. Nicolson)

 

 

 

 

A Virginia Woolf se deve o tratamento mais sublime que, na literatura, foi dado ao tema da bissexualidade. Em Orlando, a biografia ficcionada de Vita Sackville-West, a bissexualidade aparece travestida na androgenia do protagonista, que percorre quatro séculos numa busca incessante da sua identidade, primeiro como homem, depois como mulher. Orlando é o arquétipo da dualidade sexual do ser humano, e a imagem especular do modelo que o inspirou.

Ao escrever Orlando, Virginia Woolf selou o amor que a uniu a Vita Sackville-West e ofereceu-lhe a sua melhor biografia. Mas fez algo mais. Deu ao seu modelo a posteridade que foi negada à sua obra, ao imortalizá-la na pequena dedicatória de um dos livros mais fascinantes que foram legados à humanidade:

To
V. Sackville-West

(1) Nigel Nicolson, Portrait of a Mariage, Weidenfeld & Nicolson, 1973. Versão portuguesa: Retrato de um Casamento, trad. de Maria Eduarda Correia, Círculo de Leitores, 1993.
(2) Violet to Vita. The Letters of Violet Trefusis to Vita Sackville-West, ed. Mitchell A. Leaska e John Phillips, Muthuen, 1989.
(3) Violet Trefusis: A Biography, ed. Philippe Julian e John Phillips, 1976.
Victoria Glendinning, Vita: The Life of V. Sackville-West, Penguin Books, 1984.

VWoolf.JPG (20921 bytes)

 

navegação.gif (8501 bytes)


© Círculo Cultural das Comunidades Europeias 1993. All rights reserved.