A Propósito da Rentrée MARIA FILOMENA BOAVIDA |
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| Novíssimos, menos novos, consagrados ou injustamente esquecidos não serão os poetas - nem a poesia -, nossos ou de outras paragens - vertidos estes em português, língua de tantos povos, raças e culturas -, que, neste regresso de férias, nos vão, como da amostra que segue se poderá inferir, deixar à míngua (sobretudo de títulos, pois que de obras, quero dizer, no que toca ao livro propriamente dito, ao livrinho na sua materialidade concreta feita do papel onde se amortalham as ideias e da tinta que as faz respirar - nicles! Nem vê-los! Menos ainda, cheirá-los... - que quando um feliz acaso uns solitários livros esquece em modestas, mas bem intencionadas, bancas destas luxemburguesas paragens os preços escaldam, exalando baforadas de enxofre, que nos fazem fugir do escaparate, como do Diabo - a sete pés! Vicissitudes da diáspora! - dirão uns. País pobrezinho... - desculparão outros. Batatas! - digo eu. Que vivo neste país com quarenta mil outros portugueses, 10% da população do Grão-Ducado - que diabo! - a olhar por um canudo estes manjares do espírito, cujas apetitosas fragrâncias, os poucos - e dirimidos - jornais e revistas, que, medidos a dedal, aqui pingam, nos desfilam sob os carentes narizes do espírito, deixando o pobrezinho a salivar sem remédio, cada vez mais magrito, mais enfezado, quase exangue, sem força mesmo para roer de inveja as unhas, quando aqui para o lado olha e vê os nossos vizinhos - os de cá e de ao redor - bem anafados e luzidios, muito satisfeitos com os seus papinhos cheios.
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Claro que isto da inveja é muito feio - e pecado até! Por sinal, bem feio. Pois bem, mais uma razão para que quem de direito - laico ou religioso, público ou privado - nos venha salvar das chamas do inferno da ignorância, do analfabetismo, do desenraizamento. Poder-me-ia ficar por aqui. Mas sabendo eu - e bem de mais - que vozes de burro não chegam ao céu, aduzo mais uma razão, que se me antolha de peso, pois que de céu se trata: o défice celestial que ao país trariam quarenta mil portugueses pecando todos os dias, várias vezes ao dia, muitas, muitas vezes por minuto, sozinhos ou em grupo, às claras ou às escondidas. Não esquecendo quantos outros coitaditos, em grupos mais reduzidos, mas com a mesma frequência horária, andam, contra sua vontade, pelas quatro partidas do mundo pecando, pecando sem remédio. E desta é que por aqui me fico, que me rareiam as forças, julgo que - queiram Vossas Senhorias perdoar a ignorância desta vossa mui obrigada serva, mas à mão só tenho mesmo um jornal em francês, que são os que por cá medram - à cause d'inanition spirituelle. Agora mãos à obra que, se o estômago da alma está vazio como lata de esmoler em tempos de penúria, de títulos - tostadinhos do sol de férias ou acabadinhos de sair uns, à espera de serem desenfornados outros - tenho um saco cheio. As recém-lançadas Edições Mortas mimoseiam-nos com "Peidinhos", de A. Dasilva O., plaqueta que inaugura a colecção Ninho de Lacraus. Desopilante obrinha marginal, que nos dá uma definição da humanidade letrada em função dos gases que a nossa condição não retém, quem sabe se os ventos que dela emanam não afugentarão narizes mais delicados ou causarão amargos de boca a quantos em tão rescendente companhia virem sua obra editada. Ora, para já, Frederico Tapparelli, com os seus "Gostos e Amargos de ...", seguido de "A Conciliação dos Hereges", e Fernando Guerreiro, com "O nascimento do Amor e da Tragédia no Egipto", são justamente os primeiros a passar por tão dura prova: veremos como resistem. |
Chegam-nos da Limiar, do Porto, "Estrela Subterrânea", de António Cândido Franco, poeta e ensaísta, de que lembramos o livro com que há sete anos se estreou - "Matéria Prima"; da Átrio e da Editorial Escritor, ambas de Lisboa, da primeira, "Disperso & Vário", de Francisco Divor e, da segunda, ambos de Hugo Santos, "Avisos de Bem-Querer", contemplado com o Prémio da Cidade de Almada-1992, e "Os Dias da Espera", a cujo original foi atribuído o prémio Cidade de Torres Vedras-1992, e que é, nas palavras de Carlos Jorge F. Jorge, num dos textos alusivos com que abre este livro - o outro é assinado por Baptista-Bastos -, "quase que uma epopeia de Eros", uma epopeia a espraiar-se "desde os mais ínfimos movimentos do corpo e dos estados de ânimo até à construção de uma visão de plenitude amorosa arquitectonicamente elaborada". Da Relógio d'Água, chega-nos "Trinta Embarcações para Regressar Devagar", o novo volume de poemas de Miguel Serras Pereira, que igualmente se tem distinguido pela qualidade das suas traduções, tanto de ficção como de ensaio. Recordamos, deste autor, os seguintes títulos: "Corça", "As Diferenças do Corpo" e "Todo o Ano". Também desta editora, uma nova edição em português da primeira obra-prima peninsular, após a Reconquista cristã, "O Poema de Cid" - versão de Afonso Lopes Vieira -, com um prólogo de Menéndez Pidal e uma fixação mais actual do texto. |
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