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REFERENDO


A vitória da indiferença


MAIS de três milhões de portugueses que haviam acorrido às assembleias de voto, em Outubro de 1995, para escolherem entre a continuidade do PSD ou a mudança do PS, entre António Guterres e Fernando Nogueira, decidiram agora não participar com a sua opinião no referendo do aborto. Pura e simplesmente, não votaram. Levando a abstenção a atingir o valor recorde de 68,1% e o total de votantes a ficar abaixo dos três milhões de portugueses.

Esta vaga de indiferença de milhões de eleitores quanto ao que lhes era pedido - o «sim» ou o «não» no boletim de voto à alteração da actual lei da interrupção voluntária da gravidez, no sentido de a despenalizar (ou liberalizar) nas primeiras dez semanas - atingiu uma amplitude imprevista na generalidade das previsões e sondagens. E alastrou a todos os recantos eleitorais do país: de Trás-os-Montes ao Algarve e do Interior às Ilhas, com maior ou menor grau de intensidade.

A corrente abstencionista penalizou, sobretudo, o bloco político de esquerda, que perdeu cerca de um milhão e 900 mil votantes em relação às legislativas de 1995, enquanto o bloco de direita «apenas» viu reduzir-se o seu eleitorado em um milhão e 200 mil apoiantes. Este défice de 700 mil votos que a esquerda deixou fugir a mais do que a direita é uma primeira explicação para a vitória tangencial do «não» que se cifrou em escassos 48.619 votos (menos de 2% dos votantes). E confirma, por outro lado, a tendência para a aproximação do «não» ao «sim» que as últimas sondagens vinham apontando.

A abstenção ultrapassou o patamar dos 60% em quase todo o Continente e Ilhas, atingindo a sua maior intensidade no interior do país - do Algarve às Beiras, atravessando todo o Alentejo, onde raramente ficou abaixo dos 70%. As poucas excepções a este panorama situam-se quase por inteiro no distrito de Braga, cuja mobilização para o voto «não» obteve resultados claramente acima da média. Ao invés, foi no interior Sul e no Algarve que se verificaram as mais fortes taxas de alheamento do eleitorado, o que teve uma incidência negativa no bloco político de esquerda, aí dominante, e na fragilizada votação do «sim».

Mas foi o alastramento do fenómeno abstencionista aos meios urbanos, onde o «sim» tinha os seus principais bastiões e bases de votantes, que determinou, no essencial, o triunfo do «não». Nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, em particular, onde se concentram mais de três milhões de eleitores, a abstenção ficou abaixo da média nacional, mas, ainda assim, acima dos 60%. E o contributo numérico deste eleitorado urbano tem sido decisivo para a construção das grandes vitórias e derrotas nas urnas - das maiorias absolutas de Cavaco à vitória da Nova Maioria de Guterres. A sua desmobilização no passado domingo foi fatal para as aspirações dos que pretendiam alterar a legislação do aborto.

Não é difícil encontrar um conjunto de razões para explicar este recorde abstencionista de 68,1% - e, saliente-se, que a abstenção subiria para os 69,6% se não tivessem, há pouco, sido abatidos mais de 400 mil eleitores-fantasmas no recenseamento extraordinário do Ministério da Administração Interna.

Uma primeira razão para esta manifestação de indiferença de mais de cinco milhões de portugueses, que prescindiram de participar de forma activa no referendo de 28 de Junho, é a ideia elementar de terem considerado que a alteração da lei vigente não era uma questão prioritária na vida política do país. Também o facto de se tratar de uma questão de consciência, cuja complexidade se acentuou para muitos com o decorrer da campanha, na qual eram postos em causa valores contraditórios - como a vida do feto e os riscos para a saúde das mulheres que se sujeitam ao aborto clandestino -, terá desmotivado muitos eleitores de optarem pelos redutores «sim» ou «não». Do mesmo modo, a falta de empenhamento e de participação dos dois maiores partidos, bem como das suas principais figuras políticas no debate e na campanha (António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, além da maioria dos dirigentes do PS e do PSD, estiveram praticamente ausentes) terão contribuído, igualmente, para inculcar no eleitorado a ideia de que o referendo em causa tinha uma importância muito relativa. E uma outra razão, que não deve ser esquecida, para este caudal abstencionista é a apatia cívica e o desinteresse egoísta de uma vasta parcela de eleitores por problemas da comunidade que não lhes digam directamente respeito - como, para muitos, terá sido o tema da interrupção voluntária da gravidez.

Mas, para além das razões morais, culturais ou políticas, o recorde de não votantes surge como reacção óbvia e conclusão paradigmática de um processo mal conduzido, desde o início, por Sérgio Sousa Pinto, pelo PS e pela classe política em geral.

O erro do jovem líder da JS e da bancada parlamentar socialista não foi, sequer, o da apresentação de uma lei que tinha sido chumbada pelo mesmo Parlamento um ano antes e que nem constava do programa do Governo do PS. A ilusão de Sérgio Sousa Pinto e dos socialistas que o secundaram foi o de pensar que era possível impor, sem apoios políticos de vulto, o seu projecto contra tudo e contra todos: contra uma direita unida, contra o primeiro-ministro e contra o bom senso ou a indiferença da maioria do eleitorado.

Marcelo Rebelo de Sousa forçou, em cima da hora, o referendo. Como último recurso para impedir a aprovação da lei já votada favoravelmente, na generalidade, por PS e PCP. E explorou sabiamente as vulnerabilidades dos defensores do «sim»: o incómodo pela posição de Guterres e o desinteresse de grande parte do eleitorado. Evitou qualquer radicalização da campanha, que serviria para mobilizar franjas desmotivadas do eleitorado, procurou não hostilizar o decisivo voto urbano e afastou do palco os dirigentes de primeira linha do PSD. A estratégia foi certeira e se, como parecia, visava apenas inviabilizar a aprovação da lei através de um referendo não vinculativo (por não alcançar os 50% de votantes), acabou por ter o prémio suplementar e inesperado da vitória do «não».

Paulo Portas, por seu lado, empenhou-se na campanha e foi o líder político que mais apareceu a capitalizar os resultados do referendo. Ora verberando a irresponsabilidade da esquerda que tentara aprovar a lei no Parlamento, ora criticando os significativos silêncios políticos de António Guterres. Recém-estreado na liderança, Portas soube aproveitar mediaticamente a sua primeira vitória eleitoral.

No extremo oposto estavam Carlos Carvalhas e o PCP. Os comunistas averbaram mais uma derrota política, num processo em que o seu grau de mobilização e comprometimento político foi muito superior ao dos seus parceiros socialistas... que haviam sido as proponentes da alteração da lei. O PCP tem vogado ao sabor das flutuações do PS, no aborto como na regionalização ou nos aumentos da pensões. E não se pode dizer que tenha colhido quaisquer dividendos dessa subalternização.

Já o PS sai claramente derrotado deste primeiro referendo em Portugal - tanto mais que alguns dirigentes não escondiam querer compensar uma eventual derrota no referendo da regionalização com uma vitória mais do que esperada no referendo do aborto. António Guterres tentou manter-se, em todo este processo e mesmo no pós-referendo, acima da luta partidária e dos estilhaços eleitorais da derrota. Terá surgido como vítima das circunstâncias aos olhos de muitos portugueses, mas virou contra si (por não ter dado a cara na campanha) ou contra o PS (por querer forçar a alteração da lei) muitos dos que deram o seu voto à Nova Maioria, em Outubro de 1995.

Texto de JOSÉ ANTÓNIO LIMA


 

Portugal em carne viva

 

Há quem considere decepcionante a experiência do referendo realizado no domingo passado.
Eu considero-a apaixonante.
Os resultados mostram que muita gente mudou de opinião durante a campanha - o que prova que ela foi motivadora e levou os portugueses a reflectirem.
E o não envolvimento directo dos grandes partidos e das principais figuras políticas no debate possibilitou que os resultados revelassem um país em estado puro, ou seja, permitiu que Portugal se revelasse tal como é.
Comecemos pela mudança de opinião verificada durante a campanha.
Sabemos que o «sim» partiu com um avanço enorme sobre o «não», como mostravam todas as sondagens.
À medida que a campanha avançava, porém, a dúvida foi-se instalando em muitos daqueles que planeavam votar «sim» - sobretudo entre os mais jovens.
Não é levianamente que se aceita que a vida tem um valor relativo.
Não é com ligeireza que se admite a possibilidade de o embrião de uma vida humana ser desfeito sem que isso tenha quaisquer consequências.
Assim, quando chegou o dia do referendo, muitos terão pensado: «Por que razão terei de votar se tenho dúvidas e o 'sim' já ganhou?».
Muitas das abstenções de domingo não foram, pois, provocadas pelo desinteresse, ou por se achar que o assunto não merecia um referendo, ou por falta de informação: foram determinadas pelo facto de as pessoas não estarem absolutamente seguras do seu voto, por terem dúvidas, por recearem estar a cometer um erro.
Nas eleições partidárias a consulta é menos íntima e existe a ideia de que o voto no PS ou no PSD não muda significativamente as coisas.
Aqui, houve a consciência de que a questão ia mais fundo.
Que dizia respeito à vida e à morte - e com isso não se brinca.
Houve a consciência de que cada um teria de responder perante si próprio.
Vejamos agora o mapa que ilustra este texto e onde se indicam a preto e a branco os distritos onde os resultados foram mais desnivelados.
A imagem é impressionante.
No Norte e no Sul do país as votações foram exactamente opostas.
Em Braga, por exemplo, o «não» venceu por 77 por cento contra 23 por cento - precisamente o mesmo valor obtido em Beja pelo «sim».
Em Viana do Castelo o «não» ganhou por 74 por cento contra 26 por cento; em Évora venceu o «sim» por 73 por cento contra 27 por cento.
Os exemplos podiam continuar.
E mostram que, em amplas zonas do país, os eleitores não votaram em função das suas consciências mas em função do lugar onde vivem.
Um votante de Braga tinha à partida 77 por cento de probabilidades de votar «não» e apenas 23 por cento de votar «sim»; para um votante de Beja, a probabilidade era precisamente inversa.
O referendo do aborto deu-nos, assim, um retrato nu e cru do país.
Perante a ausência na campanha dos dois partidos mais importantes, perante o não envolvimento das figuras políticas mais destacadas, Portugal pôde vir ao de cima - e mostrar-se tal como é.
Ficou claro que há duas forças no país cuja influência continua a ser poderosíssima e que se sobrepõe à da SIC, à da RTP, à do «Big Show» ou à de Catarina Furtado, Diogo Infante e companhia.
Essas forças são a Igreja Católica e o Partido Comunista.
A Igreja Católica continua a condicionar decisivamente a opinião pública no Norte de Portugal - e em Aveiro, Braga, Bragança, Guarda, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu, para além das ilhas, impôs votações a favor do «não» cuja média se situou nos 75 por cento.
E o Partido Comunista, que desde 1921 disputa à Igreja a influência no campo da ideologia e se propôs criar um homem novo e uma nova forma de olhar o mundo, condiciona a opinião no Sul e impôs em Beja, Évora, Faro, Lisboa, Portalegre e Setúbal votações a favor do «sim» cuja média atingiu os 73 por cento.
Este referendo permitiu que, de uma forma muito mais pura do que nas eleições partidárias, e mesmo nas presidenciais, se revelassem os dois portugais que coexistem em Portugal.
Um, enraizado, agarrado à terra, com um forte sentido de propriedade, fiel aos valores tradicionais, temente a Deus e ao desconhecido, acreditando na vida eterna.
O outro, mais errante, sem terra para defender, desprezando o valor da propriedade, não acreditando no destino mas sim na luta dos homens por melhores condições de vida, não aceitando a existência de uma vida para além da morte e lutando para conseguir nesta a felicidade.
Isto explica em parte por que razão o Norte e o Sul podem votar exactamente ao contrário numa questão que vai ao fundo do ser.
E revela que o resultado de 51 por cento contra 49, que aparentemente mostra um país equilibrado e muito hesitante em relação à liberalização do aborto, é profundamente enganador.
Os portugueses não oscilaram entre o «sim» e o «não».
Não houve equilíbrio.
O país, pelo contrário, dividiu-se dramaticamente.
Formaram-se dois blocos coesos e de sinais contrários.
E entre esses dois blocos, entre essas duas fortalezas, entre esses dois portugais não há entendimento nem conciliação possível.
Ou vence um ou vence o outro.


 

Uma fronteira dentro do país

 

TEIMOSA, a fronteira interna que parte Portugal a meio voltou a surgir no mapa dos resultados do referendo - o «não» no Norte, o «sim» no Sul. É uma divisão tão antiga como a própria nacionalidade, dizem os historiadores ouvidos pelo EXPRESSO. Mudou de forma ao longo dos séculos, mas continua a manifestar-se sempre que as opções tocam o «país profundo».

É ainda um afloramento do embate ancestral entre o «mundo mediterrânico» e o «mundo atlântico», considera Cláudio Torres, director do campo arqueológico de Mértola. Ou, também, uma consequência da «maior percentagem de clérigos» presentes no Norte, como assinala o historiador Oliveira Marques. «Uma divisão histórica com raízes longínquas, estruturante do país», resume Luís Silveira, professor na Universidade Nova.

A mulher do Sul

É consensual a influência que têm as diferentes estruturas da propriedade rural e da família, bem como a presença da Igreja, na dicotomia Norte-Sul que se observa na história mais recente. Mas os historiadores vão mais atrás.

Oliveira Marques aponta, sobretudo a partir do Condado Portucalense, a oposição entre o Norte cristão e o Sul que durante séculos foi muçulmano ou moçárabe. Mesmo depois da conquista, «as raízes continuam diferentes, há civilizações distintas», afirma.

Segundo Cláudio Torres, uma das diferenças é a «postura mediterrânica em relação à mulher». E explica: «Falamos dos atavismos que pesam sobre a mulher islâmica, mas esquecemos que a mulher do Mediterrâneo, desde os gineceus da Grécia, conquistou o seu mundo próprio, formas de defesa e interajuda características do Sul». Também característico da postura da mulher do Sul, diz, é o hábito de «juntar os trapinhos».

Oliveira Marques frisa que, «até hoje, a dualidade é sempre existente». E assinala que, «desde a I República, o Sul vota de uma maneira e o Norte de outra, com excepção do Porto, que eleitoralmente se liga mais a Lisboa».

Presença do clero

Segundo este historiador, os distritos com maior presença da Igreja «votavam mais num sentido conservador», com variações locais introduzidas pelo caciquismo e pela influência de interesses.

Cláudio Torres assinala que o ateísmo do Sul «é um mito», mas que a religiosidade, aí, «não tem nada a ver com o clericalismo, com a Igreja como estrutura», até porque são escassos os padres no terreno.

A diversidade demográfica é um dado introduzido por Luís Silveira, que refere «uma diferença de povoamento, muito visível no início do século XIX», entre Norte e Sul.

Quanto a mapas, Oliveira Marques aponta Rio Maior como «símbolo da passagem de um mundo para outro». «A fronteira é mais ou menos fluida», diz. Na sua opinião, Leiria «às vezes esteve com o Sul, agora está conservadora», e Coimbra «tem variado». Para Cláudio Torres, Coimbra «é a última cidade mediterrânica no Norte». «Não é uma questão partidária», insiste.

Frederico Carvalho



Referendos na Europa

AO optarem por não provar o sabor do referendo, dois terços dos eleitores fizeram de Portugal, para já, um caso «sui generis» no panorama da democracia directa na Europa. Particularmente significativa é a comparação com os referendos sobre o aborto na Irlanda. Na Grã-Bretanha, onde não há prática referendária, 65 por cento participaram, em 1975, na consulta que decidiu a manutenção na CEE. E 89 por cento dos noruegueses votaram, em 1994, no referendo que rejeitou a integração na União Europeia.

F.C.


IRLANDA

Na Irlanda, os referendos sobre o aborto (que continua a ser ilegal), em 1983 e 1992, mobilizaram 54 e 68 por cento dos eleitores, respectivamente. Em Maio deste ano, 56 por cento dos irlandeses quiseram pronunciar-se sobre as alterações constitucionais relacionadas com o acordo de paz na Irlanda do Norte e o Tratado de Amesterdão. Mas, em 1996 e 1997, houve fraca adesão a consultas sobre a recusa de liberdade provisória a acusados de crimes graves e sobre a confidencialidade das actas do Governo: 29 e 46 por cento, respectivamente. Em 1995, o referendo que eliminou as restrições ao divórcio teve a participação de 61 por cento dos irlandeses; o referendo de 1986 sobre o mesmo assunto, com voto contrário, mobilizara 63 por cento. A participação nos quatro referendos já realizados sobre a integração europeia variou entre os 71 (aprovação da adesão) e os 44 por cento (Acto Único).

ITÁLIA

Em matéria de fervor referendário, a Itália disputa a palma aos suíços: 45 referendos desde 1974, sendo que cada um deles necessitou, para ser convocado, de 500 mil assinaturas. O último pacote de referendos sobre reformas sortidas, em 1997, foi um fracasso: cerca de 30 por cento de adesão. Mas as 12 votações simultâneas de 1995 - com temas que iam da publicidade na TV ao desterro dos mafiosos, passando pelos horários do comércio e pelas quotizações sindicais - mobilizaram 57 por cento. A única consulta sobre a União Europeia, em 1989, levou às urnas 85 por cento dos italianos. E a participação também foi elevada em temas como a escala salarial móvel (76%, em 1985), a energia atómica (65%, em 1987) e a despenalização do consumo de drogas e o financiamento dos partidos (77%, em 1993).

ESPANHA

Desde o restabelecimento da democracia, o vizinho ibérico realizou duas votações extra-eleitorais, ambas com forte carga política. Em Dezembro de 1978, 67 por cento dos espanhóis foram às urnas para sancionar por maioria esmagadora (91,7%) a nova Constituição, que consagrava a democracia, a monarquia e as autonomias regionais. Em 1986, tratou-se de um referendo para aprovar a adesão da Espanha à NATO: a participação foi de 63 por cento.

FRANÇA

Em França, onde se realizou o primeiro referendo constitucional do mundo (1793), a prática referendária está bem enraizada, mas os referendos não são muito frequentes e a afluência às urnas nem sempre é esmagadora. A reforma das instituições políticas, em 1969, atraiu 80 por cento dos eleitores às urnas e a ratificação do Tratado de Maastricht, em 1992, 70 por cento. Entre esses dois referendos, 60 e 37 por cento dos eleitores quiseram votar, respectivamente, sobre o alargamento da Comunidade Europeia e o estatuto da Nova Caledónia, em 1972 e 1988.

DINAMARCA

Na Dinamarca, os referendos das últimas três décadas incidiram exclusivamente sobre a integração europeia (já se realizaram cinco) e sobre a idade de voto, sempre com elevada adesão. Em Maio deste ano, 75 por cento dos eleitores foram votar a ratificação do Tratado de Amesterdão, ainda assim menos do que os 86 por cento que haviam ido às urnas em 1972, para aprovar a adesão à CEE. Os dois referendos sobre o Tratado de Maastricht, em 1992 e 1993, que transformaram o inicial «não» em «sim», mobilizaram 83 e 86 por cento dos eleitores, respectivamente. Em 1971, 86 por cento pronunciaram-se sobre a redução da idade de voto para os 20 anos, mas apenas 63 por cento quiseram decidir, em 1978, nova redução para os 18 anos.

SUÍÇA

Em 1893, os suíços já votavam para proibir o abate de gado sem prévio aturdimento das reses. Considerados campeões dos referendos - 451, nos últimos 150 anos -, nem por isso têm grandes taxas de adesão. Há um mês, na votação sobre a manipulação genética, só em três dos 27 cantões a afluência superou os 50 por cento. Em 1997, o referendo que rejeitou as negociações para a adesão à UE interessou apenas 35 por cento dos eleitores, e o voto sobre o financiamento do seguro de emprego e a juventude sem droga levou 41 por cento às urnas. As duas consultas de 1996 ficaram-se pelos 31 por cento de participação. Mais mobilizador foi o voto que derrotou, em 1993, a proposta de congelar a construção de instalações militares: 56 por cento de afluência.


 

O «fracasso» do referendo

VÁRIOS políticos, entre os quais ministros, ex-ministros, ex-Presidentes da República e ex-candidatos à Presidência da República manifestaram preocupação pela elevadíssima taxa de abstenção registada no referendo sobre o aborto.

A preocupação é legítima e saudável.

Mas partir dela para levantar dúvidas sobre a instituição do referendo ou sobre a oportunidade da sua aplicação a outras questões é um raciocínio perigoso.

Não é possível afirmar com absoluta segurança que a abstenção verificada no referendo de domingo passado resultou do desinteresse dos eleitores ou de insuficiências do sistema.

Numa questão que envolve a vida humana, é natural que muita gente tenha hesitado - e que, na dúvida, tenha acabado por não votar.

Parte da abstenção verificada pode ter sido, assim, uma «abstenção virtuosa», ou seja, uma abstenção resultante de problemas levantados pela própria campanha e com os quais o eleitorado seriamente se confrontou.

Não votar, numa questão como esta, é um direito.

Tirar daí ilações sobre o referendo ou futuros referendos é um acto oportunista.

Aliás, a abstenção em consultas populares não deve ser dramatizada.

É sabido, por exemplo, que as assembleias gerais dos clubes de futebol registam invariavelmente altíssimas taxas de absentismo - sem que isso signifique desinteresse dos sócios pela vida dos clubes ou perda de entusiasmo pelo futebol.

Mal estarão as democracias quando a sua vitalidade começar a ser medida pela afluência às urnas.

Até porque a abstenção, se é um sinal de falta de empenhamento cívico, também significa confiança das pessoas no funcionamento das instituições.

É nos períodos conturbados da vida das nações, quando tudo se apresenta incerto, que a corrida às urnas é maior.

A abstenção de domingo não deve, pois, fazer-nos perder a sensatez.

O referendo é uma instituição legítima, estimula um debate interessante e animado sobre questões de fundo, leva as pessoas a confrontarem-se consigo próprias - e isso representa um bem.

Por outro lado, os resultados dos referendos fornecem-nos interessantes retratos da Nação - permitindo conhecermo-nos melhor uns aos outros.

Neste quadro, a percentagem de votantes não é decisiva.

Nem devia ser impeditiva de os referendos serem vinculativos.

O princípio básico do funcionamento das democracias é que ninguém é obrigado a votar - mas todos são obrigados a obedecer àquilo que resulta do voto.

Subverter este princípio é mexer na própria essência da democracia.

 


Selecção de artigos: © 1998 José António Faria. Todos os textos são da responsabilidade dos respectivos
autores e/ou jornais onde foram originalmente publicados.

 

Última actualização: 13/02/99.

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