Notas sobre o Pícaro

ISABEL BOTELHO MONIZ

 

Oriundo de Espanha, o étimo "pícaro" tem uma origem algo enigmática. Poderá tratar-se de uma derivação do vocábulo "picar", por analogia com os ofícios ancilares exercidos pelos pícaros: ajudantes de cozinha (1), picadores de touros, mandaretes, moços de estrebaria, etc. Outros cognatos associam-no ao sentido de ralé, de posição rasteira na escala social. No contexto literário, é na acepção adjectivada de astuto, patife, falho de honra e de vergonha, aliada ao sentido pejorativo de vida estroina e vagabunda, que o termo terá surgido pela primeira vez, na Farsa Custódia de Bartolomeu Palau (C. 1545).
Estes sentidos aparecem aglutinados no herói das novelas "lupanárias" do século XVI, através das quais é feita a transposição do pícaro para a literatura.

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O género picaresco estreia-se com Lazarillo de Tormes (1553 ou 1554) e atinge a sua plena definição (e expressão máxima) em Guzmán de Alfarache (10 parte, 1599, 20 parte, 1604), obras de cunho autobiográfico em que se radica a caracterização do herói pícaro: é pobre e vagabundo, sendo a constante deambulação um dos elementos mais característicos do pícaro; é folgazão e beberrão; étrapaceiro, recorrendo aos expedientes mais rocambolescos para matar a fome; é desrespeitador dos bons costumes e dos bens alheios; tem uma atitude estóica face à má fortuna e um pendor acentuado para as sentenças populares e moralizantesEmbora a figura do vagabundo, do boémio e do marginal, de nítida ressonância goliardesca, seja profusamente tratada em contextos literários anteriores, coetâneos e posteriores ao pícaro espanhol (nomeadamente por Bocaccio e Rabelais), o que singulariza e consagra este género literário é a sua localização no tecido geográfico da Península, com as peculariedades sociais, psicológicas e linguísticas que lhe são próprias.

 

 

O pícaro é um produto social, dando-nos o romance picaresco um retrato realista da pobreza e corrupção moral da sociedade espanhola dos séculos XVI e XVII (com a sua galeria de mendigos, prostitutas, ladrões e outros renegados), retrato que é perspectivado segundo o olhar atento (2) e mordaz do protagonista. Face à imagem desalentada de um mundo onde "todos roban, todos mienten, todos trampean" (Guzmán), o herói (ou anti-herói) pícaro subverte os códigos morais vigentes repondo no seu lugar uma ética de velhacaria e do baixo que melhor se adequa à realidade social. É nesse sentido que se pode falar do picarismo como "uma atitude perante a vida, mais do que um género literário definível pelo assunto ou por outros caracteres externos" (3)

 

Esta dimensão ideológica transpôs as fronteiras espácio-temporais do pícaro espanhol, insinuando-se na literatura de costumes (e sátira social) onde dele encontramos vestígios até aos nossos dias.

1) A expressão "pícaro de cocina" aparece pela primeira vez documentada no Libro de cocina do catalão Roberto Nola. A primeira versão castelhana desta obra, publicada em Toledo, data supostamente de 1477 (Cf. João PalmaFerreira, Do Pícaro na Literatura Portuguesa, Biblioteca Breve, 1981).

(2) O título completo da obra Guzmán de Alfarache é, precisamente, Atalaya de la vida humana, aventura y vida del pícaro Guzmán de Alfarache.

(3) Gili y Gaya, Guzmán de Alfarache, Int., p. 8, Madrid, 1962 (citado por João Palma-Ferreira, op. cit., p. 9).

 

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