NOTAS

 

Trabalhos e Paixões de Benito Prada é o testemunho mais recente da implantação do género picaresco nas letras portuguesas. Com esta asserção reacendemos uma velha polémica: existe ou não uma tradição picaresca na literatura portuguesa?

ISABEL BOTELHO MONIZ

Da escassa bibliografia crítica dedicada à picaresca portuguesa destacam-se dois títulos essenciais: Huellas de la picaresca en Portugal (Madrid, 1968), um estudo dos vestígios e influências do pícaro na literatura portuguesa até ao século XVII inclusive da Prof0 Ulla Trullemans, da Universidade de Copenhaga, e Do Pícaro na Literatura Portuguesa (Lisboa, Biblioteca Breve, 1981) do Prof. João Palma-Ferreira que, glosando o ensaio de Ulla Trullemans, traça uma perspectiva diacrónica da picaresca nas letras portuguesas até aos nossos dias.

Analisando a possível endogénese de um pícaro português, Ulla Trullemans regista, por um lado, as coincidências temáticas entre a novela picaresca e as cantigas de escárnio e maldizer galaico-portuguesas, bem como o ressurgimento desses temas em algumas farsas de Gil Vicente e, por outro, o influxo da literatura e cultura castelhana em Portugal, a que não é alheio o bilinguismo, cultivado no nosso país até finais do século XVII. Não obstante este terreno propício e o facto de detectar vestígios do pícaro em algumas obras de autores portugueses como, por exemplo, a Comédia Eufrósina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (escrita no segundo quartel do século XVI) ou a Arte de Furtar (anónimo, 1652), Ulla Trullemans considera que não existe um único exemplo de novela pícara na literatura portuguesa, nem uma autêntica floração do género entre nós (1).

A ensaísta apoia-se em estudiosos como Teófilo Braga e Hernâni Cidade, que postulam a inexistência de uma literatura portuguesa moldada na picaresca espanhola, e nas posições mais moderadas de Fidelino de Figueiredo, António José Saraiva ou Jacinto do Prado Coelho que reconhecem um fundo picaresco em algumas obras porguguesas (nomeadamente nas Obras do Diabinho da Mão Furada, nos Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, ou ainda na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto).

João Palma-Ferreira refuta a tese da ensaísta dinamarquesa, citando três obras portuguesas pertencentes ao período abordado que, em sua opinião, se inserem lidimamente neste género literário: Tercera Parte de Guzmán de Alfarache, de Félix Machado da Silva Castro e Vasconcelos, Marquês de Montebelo; Vida de Don Gregorio Guadaña, de António Enríquez Gomez ou António Henriques Gomes; O Desgraciado Amante Peralvilho, do Padre Gaspar Pires Rebelo. Este postulado originou uma polémica entre os dois críticos, censurando João Palma-Ferreira a Ulla Trullemans o facto de não mencionar a nacionalidade portuguesa de António Henriques Gomes e de ter ignorado a existência de Gaspar Pires Rebelo.

 

 

Numa nota publicada no n1 71 da Colóquio/Letras (Janeiro de 1983) Ulla Trullemans presta alguns esclarecimentos sobre o assunto. Relativamente a Gaspar Pires Rebelo, reconhece ao ensaísta português "o mérito de ter exumado este vestígio da picaresca castelhana que, até hoje, jazia esquecido e sepultado na obscuridade dos séculos" (ob. cit., p. 71), admitindo até que O Desgraciado Amante Peralvilho constitui a primeira obra do género escrita em português. No tocante à nacionalidade de António Henriques Gomes, mantém o seu ponto de vista escorando-se num artigo de I.S. Révah, "Un pamphlet contre l'inquisition", publicado em 1963. Esta questão suscitou um comentário da Prof0 Janina Z. Klave, da Universidade de Varsóvia, que corrobora o postulado do estudioso português (2).

João Palma-Ferreira abarca na sua perspectiva histórica outras formas literárias para além do romance. No entremez dos séculos XVII e XVIII destaca a Musa Entretenida de Vários Entremezes, conjunto de vinte e cinco peças publicado por Manuel Coelho Rebelo em 1658, abordando mais detidamente a peça número IX, o Pícaro Falador. Na poesia, cita a Vida de um Estudante Pobre (1761) de Diogo Sousa Camacho, obra que satiriza o problema da pobreza e da fome dos estudantes (um tema recorrente do pícaro), bem como A Vida e Morte de Tomás Pinto Brandão (editada em 1779-1785), autobiografia burlesca de fundo verista, e A Martinhada, atribuída a Caetano José da Silva Souto Maior (1696-1739).

No século XIX, confere especial destaque ao Piolho Viajante, editada em 1802 por Policarpo da Silva, seu provável autor, obra que concilia o pícaro com a sátira social e a novela de costumes. O pícaro aparece também aliado à sátira em José Daniel Rodrigues da Costa (1755-1832), nomeadamente no Barco da Carreira dos Tolos, uma das suas obras mais célebres, e ressurge esbatidamente nas comédias de Nicolau Luís (1723-1787). Como observa João Palma-Ferreira, o Romantismo não produziu muitas obras do género e na transição do Realismo para o Naturalismo surgem em Camilo Castelo Branco, Abel Coelho e Eça de Queirós alguns tipos de cunho picaresco. Refere ainda as Memórias de João Coradinho, de Almeida Garrett, e o livro Boémia Antiga (1897), de D. Tomás de Melo, também no contexto do memorialismo.

Na literatura contemporânea, encontra afloramentos do pícaro em autores como Joaquim Leitão, Domingos Monteiro, Vitorino Nemésio (Outras Prisões debaixo de Armas), José Araújo Correia, Nuno Bragança, José Cardoso Pires e muitos outros, reconhecendo em O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro o seu emblema exemplar. A esta lista podemos acrescentar Fernando Assis Pacheco, com Trabalhos e Paixões de Benito Prada.

Em conclusão, é lícito falar de uma tendência picaresca na literatura portuguesa que se manifesta até à nossa época, embora de forma esporádica e diluída na sátira social, pois, como observa João Palma-Ferreira, o pícaro "parece nunca ter correspondido a uma faceta característica da mentalidade portuguesa" (ob. cit., p. 91).

(1) Cf. João Palma-Ferreira, ob. cit., p. 40.

(2) Numa nota publicada na Colóquio/Letras n1 74 (Julho de 1983), Janina Z. Klave sublinha que quando I.S. Révah escreveu o seu artigo (1963) desconhecia naturalmente a única história realmente documentada dos judeus, inclusive dos marranos portugueses, publicada em 1971: a Encyclopaedia judaica, editada em Jerusalém, onde no vol. VII se lê que António Enríquez (ou Henriques) Gómez foi "the son of a Portuguese Marrano".

 

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