NOTAS
Trabalhos e Paixões de Benito Prada é o testemunho mais recente da implantação do género picaresco nas letras portuguesas. Com esta asserção reacendemos uma velha polémica: existe ou não uma tradição picaresca na literatura portuguesa? ISABEL BOTELHO MONIZ
|
||
Numa nota publicada no n1 71 da Colóquio/Letras (Janeiro de 1983) Ulla Trullemans presta alguns esclarecimentos sobre o assunto. Relativamente a Gaspar Pires Rebelo, reconhece ao ensaísta português "o mérito de ter exumado este vestígio da picaresca castelhana que, até hoje, jazia esquecido e sepultado na obscuridade dos séculos" (ob. cit., p. 71), admitindo até que O Desgraciado Amante Peralvilho constitui a primeira obra do género escrita em português. No tocante à nacionalidade de António Henriques Gomes, mantém o seu ponto de vista escorando-se num artigo de I.S. Révah, "Un pamphlet contre l'inquisition", publicado em 1963. Esta questão suscitou um comentário da Prof0 Janina Z. Klave, da Universidade de Varsóvia, que corrobora o postulado do estudioso português (2). João Palma-Ferreira abarca na sua perspectiva histórica outras formas literárias para além do romance. No entremez dos séculos XVII e XVIII destaca a Musa Entretenida de Vários Entremezes, conjunto de vinte e cinco peças publicado por Manuel Coelho Rebelo em 1658, abordando mais detidamente a peça número IX, o Pícaro Falador. Na poesia, cita a Vida de um Estudante Pobre (1761) de Diogo Sousa Camacho, obra que satiriza o problema da pobreza e da fome dos estudantes (um tema recorrente do pícaro), bem como A Vida e Morte de Tomás Pinto Brandão (editada em 1779-1785), autobiografia burlesca de fundo verista, e A Martinhada, atribuída a Caetano José da Silva Souto Maior (1696-1739). No século XIX, confere especial destaque ao Piolho Viajante, editada em 1802 por Policarpo da Silva, seu provável autor, obra que concilia o pícaro com a sátira social e a novela de costumes. O pícaro aparece também aliado à sátira em José Daniel Rodrigues da Costa (1755-1832), nomeadamente no Barco da Carreira dos Tolos, uma das suas obras mais célebres, e ressurge esbatidamente nas comédias de Nicolau Luís (1723-1787). Como observa João Palma-Ferreira, o Romantismo não produziu muitas obras do género e na transição do Realismo para o Naturalismo surgem em Camilo Castelo Branco, Abel Coelho e Eça de Queirós alguns tipos de cunho picaresco. Refere ainda as Memórias de João Coradinho, de Almeida Garrett, e o livro Boémia Antiga (1897), de D. Tomás de Melo, também no contexto do memorialismo. Na literatura contemporânea, encontra afloramentos do pícaro em autores como Joaquim Leitão, Domingos Monteiro, Vitorino Nemésio (Outras Prisões debaixo de Armas), José Araújo Correia, Nuno Bragança, José Cardoso Pires e muitos outros, reconhecendo em O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro o seu emblema exemplar. A esta lista podemos acrescentar Fernando Assis Pacheco, com Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Em conclusão, é lícito falar de uma tendência picaresca na literatura portuguesa que se manifesta até à nossa época, embora de forma esporádica e diluída na sátira social, pois, como observa João Palma-Ferreira, o pícaro "parece nunca ter correspondido a uma faceta característica da mentalidade portuguesa" (ob. cit., p. 91). (1) Cf. João Palma-Ferreira, ob. cit., p. 40. (2) Numa nota publicada na Colóquio/Letras n1 74 (Julho de 1983), Janina Z. Klave sublinha que quando I.S. Révah escreveu o seu artigo (1963) desconhecia naturalmente a única história realmente documentada dos judeus, inclusive dos marranos portugueses, publicada em 1971: a Encyclopaedia judaica, editada em Jerusalém, onde no vol. VII se lê que António Enríquez (ou Henriques) Gómez foi "the son of a Portuguese Marrano". |
||
© Círculo Cultural das Comunidades Europeias 1993. All rights
reserved.