Lusitanos e
Estrangeirados

ISABEL BOTELHO MONIZ

 

Um domínio da cultura portuguesa em que nunca teria cabimento a expressão "orgulhosamente sós", é a música. A música portuguesa nunca se quedou no ponto ermo da Nação. O próprio hino nacional, A Portuguesa, foi escrito por um descendente de alemães.

No caso da música erudita, o panorama discográfico nacional revela-nos esta realidade. Se fizermos um levantamento das obras de qualidade (e de nível internacional) produzidas mais recentemente em Portugal acabaremos por reconhecer a omnipresença do contributo estrangeiro. Do mesmo modo, constatamos que os registos de música portuguesa mais interessantes são, invariavelmente, editados no estrangeiro.

Sem pretensões de exaustividade, refiram-se alguns casos ilustrativos. No palácio Mateus, o florão da arquitectura barroca portuguesa edificado por Nicolau Nasoni, realizam-se regularmente, no Verão, os cursos de música barroca, onde confluem músicos de variadíssimas nacionalidades. Foi neste contexto que nasceu o Ensemble Baroque de Mateus, um grupo de doze instrumentistas dirigidos por Marie Leonhardt, residente em Portugal desde 1986. O seu primeiro disco, editado em 1992 por uma nova marca, a Canal Grande, constitui uma das obras mais curiosas produzidas naquele ano em Portugal. Com o título de The Great Chaconnes of the Baroque (uma espécie de triunfo do barroco musical) inclui chaconnes, sarabandas e passacalhas de Purcell, Biber, Marini, Cazzatti e alguns outros. Um disco a todos os títulos europeu.

Nesse mesmo ano, foram editados em Portugal dois discos de um compositor português que se sabe ter sido prolífero mas cujas obras têm andado arredadas dos nossos leitores de CD: João Domingos Bomtempo (1771-1842). A Orquestra Filarmónica de Budapeste, sob a direcção de Mátyás Antal, interpreta o "Te Deum" num disco e, no outro, as "Quadro Absolvições" e "Libera Me". Embora os registos tenham uma qualidade acima da média e constituam um primeiro passo na recuperação da obra do compositor, integram-se num catálogo da Portugalsom (etiqueta da SEC) consagrado à produção musical portuguesa que poucas possibilidades terá de projecção internacional.

 

  A exumação das nossas glórias musicais em registos de gabarito internacional deveu-se, nos últimos anos, a editoras estrangeiras. No campo da polifonia sacra, merece especial destaque o Requiem de Frei Manuel Cardoso (1566-1650), da responsabilidade dos Tallis Scholar (Hypérion, 1990). Note-se que este frade não é uma figura menor da cena musical: foi, nada menos, o primeiro contrapontista do seu tempo. Ainda no domínio sacro, refira-se a oratória La Giuditta, de Francisco António de Almeida, compositor do século XVIII e autor da primeira ópera portuguesa de estilo italiano, La Pazienza di Socrate. Foi com paciência socrática que esperámos por 1992 para termos este registo notável assinado por René Jacobs e o Concerto Köln, com a chancela da Harmonia Mundi.

Uma componente da música antiga em que a discografia nacional se revela de uma pobreza franciscana é a lírica profana. Só em parte esta escassez é imputável à raridade das fontes musicais anteriores ao século XVII (que, não obstante, testemunham uma forte tradição musical). Com efeito, existem documentos musicais (sacros e profanos) que ainda não foram alvo de uma transcrição crítica nem interpretados. De que estão à espera as nossas autoridades culturais? Certamente que os estrangeiros façam esse trabalho.

Um exemplo disso é a edição, pela Virgin Classics (e patrocinada pela Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses) de O Lusitano (1992), assinado pelo Ensemble Circa 1500, um grupo dirigido por Nancy Hadden que tem explorado com rigor e virtuosismo o repertório ibérico da época dos Descobrimentos. Trata-se de uma preciosidade discográfica que reúne vilancicos, cantigas e romances quinhentistas e seiscentistas, interpretados por Gérard Lesne, um dos maiores contratenores da actualidade. Quem teve a sorte de estar em Lisboa por ocasião da 170 edição das Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian pôde ouvi-lo na Igreja do Loreto a cantar Couperin, Scarlatti, Corelli e Vivaldi.Paralelamente à sua qualidade musical, este disco é importante pelo seu valor documental.

O Lusitano inclui composições extraídas dos únicos testemunhos do canto secular do século XVI: o Cancioneiro Musical e Poético da Biblioteca Pública Hortência (vulgo Cancioneiro de Elvas), cuja feitura data de 1550, e dois outros manuscritos coetâneos recentemente descobertos, um em Lisboa, outro em Paris.

 

Alguns cantos evocam diversos eventos da história portuguesa: a cantiga "Ninha era la infanta" faz alusão à partida da infanta D. Beatriz, filha de D. Manuel I, para casar com o Duque de Sabóia (1521); "Puestos están frente a frente" é um lamento sobre a derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir, que "Busca la muerte en dar muertes/ Sebastiano el Lusitano/ Diziendo aora es la hora/ Que un bel morir, tuta la vita honora". Curiosa é a versão do motete "Clamabat autem mulier", com arranjo para voz e alaúde de Alonso Mudarra, que se destinava a ser interpretado no final do Auto de Canaea de Gil Vicente. Inclui também um tento para harpa de Manuel Rodrigues Coelho, autor da primeira peça para harpa editada em Portugal, em 1620 (e não 1820 como indica a literatura inclusa), com o título "Flores de Música para o instrumento de tecla e harpa". Acrescente-se ao rol de curiosidades o facto de a transcrição e o estudo desta obra se deverem a um estudioso não português, M.S. Kastner. Para terminar, são dignas de nota a versão instrumental de um "Tantum ergo sacramentum" do já citado Frei Manuel Cardoso, e as peças de Manuel Machado e Pedro Escobar, dois compositores portugueses que fizeram carreiras brilhantes em Espanha.

Um exemplo emblemático do esquecimento a que são votadas as nossas maiores figuras da cultura musical é João Lourenço Rebelo (1610-1661). Alguém se preocupou em editar, em Portugal, um registo de qualidade da obra integral deste músico singular, que foi chantre de Teodósio II, preceptor musical de D. João IV e o maior compositor português do seu tempo? O génio deste musico só foi condignamente reconhecido no estrangeiro. Quando a Vivarte editou Lamentações para a Quinta-feira Santa e Salmos das Vésperas (Huelgas Ensemble, dir. Paul van Nevel, 1993) de João Lourenço Rebelo, um crítico estrangeiro classificou a sua obra como a mais aliciante "descoberta" do ano. Quando decidirá Portugal descobrir o seu património musical?

 

Músicos de orquestra precisam-se

 

Um acontecimento animador na cena orquestral portuguesa é a criação simultânea da Academia Nacional Superior de Orquestra e da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML). Na sua origem está um estudo sobre o ensino musical no nosso país encomendado pelo ministro da Educação ao compositor e maestro Miguel Graça Moura. Conclusão do mesmo: as instituições de ensino estão mais vocacionadas para a formação de solistas do que de músicos de orquestra. Este duplo projecto vem preencher essa lacuna dado que os músicos da Orquestra são os professores da Academia. Esta ideia original parece ser exequível pois na sua primeira temporada a OML conseguiu conciliar um programa exaustivo (500 concertos e recitais) com a sua actividade pedagógica (da qual beneficiam por enquanto 24 alunos).

A segunda "loucura" de Miguel Graça Moura (fundador da extinta orquestra de câmara La Folia) reúne 25 músicos de nível internacional rigorosamente escolhidos segundo o critério da polivalência: é-lhes exigido um bom nível tanto na prática orquestral, na música de câmara, nos recitais a solo como no ensino. Bastante revelador da realidade musical do país é o facto de só dois músicos terem a nacionalidade portuguesa. Miguel Graça Moura tem grandes ambições para a sua orquestra: aumentar para 37 o número de músicos em 1994, para prover às necessidades decorrentes do facto de Lisboa ser a Capital Cultural Europeia nesse ano e, a mais longo prazo, transformá-la numa formação sinfónica de 90 a 120 elementos.

Mantenham-se atentos a esta orquestra: do seu curriculum vitae já constam um disco gravado e uma digressão a Estrasburgo e Bruxelas.

 

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