LITERATURA INFANTIL

Rua
do Abecedário

ERMELINDA PINTO

 

O reduzido panorama da cultura portuguesa no Luxemburgo acaba de ser abalado pela publicação de um "livro pensado para ajudar as crianças na memorização do alfabeto através da personificação das letras", no dizer dos próprios autores.

Resultado de um trabalho de equipa entre o autor português Augusto Múrias, o ilustrador luxemburguês Romain Lenertz, o francês Claude Frisoni e o belga Pierre Goffin que asseguraram a tradução para francês, Rua do Abecedário/Rue de l'Abécédaire, editado conjuntamente pela ASA e pelas Publications ZACK, é um livro lúdico que, pela associação do texto à imagem, procura fazer despertar nas crianças o gosto pela leitura.

É um obra bilingue destinada a um público-alvo específico. O que imediatamente transparece desta obra é a unidade que se manifesta na aparente diversidade de um tal projecto.

Estamos efectivamente perante um trabalho de equipa. O leitor fica sem saber exactamente se foi o texto que induziu a imagem ou se aquele funciona apenas com prolongamento desta. De assinalar, igualmente, a óptima qualidade da versão francesa deste texto siamês. Veja-se, por exemplo, os efeitos expressivos da aliteração que a língua francesa nos oferece quando, na letra S , nos confidencia o segredo da serpente: "Par les vagues éclaboussé,/ paresseusement je serpente,/ entre la mousse rafraîchissante/ et la blancheur des eaux salées,".

As ilustrações, ao contrário do que frequentemente acontece, não cumprem apenas a função de estar ali. Mediante um expressivo esquematismo caricatural, interferem com o texto, assumem-se como linguagem autónoma e prolongam o prazer da leitura numa dimensão visual e cromática.

Atendendo aos fins a que este trabalho se destina e conhecida a dificuldade de explicar a uma criança a lógica do arbitrário que é o alfabeto, o autor procura adoptar uma postura mais próxima da mundividência infantil, atribuindo a cada uma das 26 letras do alfabeto uma fisionomia ou um carácter "impressionados" pela sua configuração e/ou reminiscências culturais: do A das pernas compridas que tem-te não caias ao Z de Zorro sempre vigilante para acudir às pobres solitárias da rua, desfilam perante nós uma série de tipos e objectos do quotidiano facilmente identificáveis pela criança.

 

As intenções mnemónicas e recreativas manifestam-se claramente na apresentação formal do texto. Numa prosa rimada que explora eficazmente o movimento rítmico das lengalengas e das adivinhas infantis, o autor consegue autobanir-se do texto no momento adequado em que, de uma forma interactiva, caberá à criança retomar com prazer o jogo, isolar as palavras, dividi-las em sons naturais e sensibilizar a sua acuidade visual ou auditiva. "Qual é a letra, qual é,/que caminha num só pé,/ o outro está atravessado/ ou será mesmo arredondado?/ Mas atenção ao seu jeito,/ conserva o corpo direito,/ apesar da perna dobrada,/ fica toda equilibrada./ Quem ao longe a avistar / há-de chegar a pensar/ que é uma cabeçuda/ um pedaço barriguda./ Nada disso é acertado/ se de perto observado,/ senão, onde teria ela o outro pé?/ Sabes agora que letra é?"

Adivinhei! É o P, a letra do pé-cochinho!

Estamos, obviamente, no domínio da denotação pura. Porém, as adivinhas, como as lengalengas da tradição popular, vão evoluindo, invadem os domínios da comparação e da metáfora, corporizam-se em imagens que abrem caminho ao pensamento conceptual, reversível e abstracto, e sempre, sempre, sem perder o fascínio da musicalidade e do ritmo que uma certa pedagogia das opções racionais julga definitivamente perdido.

 

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