JOSÉ ANTÓNIO FARIA
"La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres!" - Mallarmé"
"E Deus criou a mulher..." De todas as criações divinas, nenhuma iria fazer correr tanta tinta como este "osso supranumerário do Homem". Identificada com o sexo, a concupiscência e a personificação do Mal na tradição judaico-cristã, a mulher sempre foi considerada como o ser responsável pela expulsão do Paraíso, como a instigadora do "pecado original" que lançou o Homem na "idade do ferro". Porém, a imagem da mulher na sociedade ocidental não é apenas fruto da tradição cultural de base cristã. Esta é resultante de toda a herança cultural greco-latina que vai oferecer o contexto sociocultural onde emergirá o cristianismo. |
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Extremamente importante é o papel que a filosofia platónica vai desempenhar na formação dessa herança. No "Banquete", pela boca do poeta cómico Aristófanes, Platão apresenta-nos uma diferente concepção da teoria do amor. Originalmente, os seres humanos estavam repartidos em três géneros: o macho, a fêmea e o andrógeno. Este último, de forma globular e de flancos arredondados em círculo, provinha da Lua, enquanto o macho era originário do Sol e a fêmea da Terra. Terrivelmente fortes e resistentes, os andrógenos alimentavam projectos ambiciosos, começando a atentar contra os deuses. Zeus decide então enfraquecê-los para acabar com a sua arrogância: decidiu dividi-los ao meio, enquanto Apolo lhes ia virando o rosto para o lado da ferida, no intuito de que, com a visão da sua própria chaga, o homem acabasse por aceitar a humildade da sua condição. "Ora, quando a forma natural se encontrou dividida em duas, cada metade, com saudades da sua metade, se lhe reunia, e, estendendo as mãos em volta, enlaçadas uma na outra, não mais aspiravam senão a fundir-se num só". O desejo do homem é, pois, reunir-se e fundir-se no ser amado por tal forma que ambos se tornem uma e a mesma pessoa.
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A teoria platónica do amor, contextualizada na sua teoria das ideias e dos dois mundos, irá, juntamente com o conceito de "pecado original" da tradição agostiniana, estar na base dos futuros desenvolvimentos do fenómeno amoroso, sendo apenas temporariamente interrompido pela disseminação da cultura árabe, de base aristotélica, e o seu prolongamento na cultura trovadoresca. Para comprendermos o fascínio que Platão irá exercer sobre a patrística medieval importa atentarmos num importante aspecto: recusando a realidade do mundo sensível, considerando-o mera "sombra" do mundo inteligível, da verdadeira realidade, Platão constrói uma teoria sistemática de "anulação do sensível", de "rejeição do objecto". Cedo, os padres da Igreja compreenderam que, se o conceito de "Ideia" platónica fosse substituído pelo de "Deus", dispunham imediatamente de um sistema ideológico quase acabado e de extrema utilidade. Ademais, a "adaptação" da teoria platónica aos novos ideais e à nova moral fora já feita, na Antiguidade tardia, pelo filósofo neo-platónico Plotino, o qual, juntamente com o Areopagita, tinha transmitido ao mundo helenístico a filosofia platónica. |
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