LITERATURA

 

O ÚLTIMO ROMANCE DE FERNANDO ASSIS PACHECO

Trabalhos e Paixões
de Benito Prada

 

"Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto.
O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
'Caramba', disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, 'é à segoviana'!. 'Mas não lhe pões o dente', cortou o outro."

(Excerto de Trabalhos e Paixões de Benito Prada)

ISABEL BOTELHO MONIZ

assis1.gif (25493 bytes)

 

Fernando Assis Pacheco firmou uma presença singular na literatura portuguesa através da poesia, terreno privilegiado onde dá vazão ao seu "gosto quase vulcânico pela escrita"(1). Na sua obra poética, antologiada em A Musa Irregular (Lisboa, ed. Hiena, 1991), encontramos o mesmo pendor satírico e as mesmas qualidades de observação do corpus social que o autor irá revelar em Walt (Lisboa, Bertrand, 1978), a sua primeira experiência novelística. Apodada de "noveleta" pelo autor, Walt narra os preparativos do embarque de um pelotão na gare marítima de Alcântara, em 1963, com destino ao Ultramar. Alguns críticos anteviram neste livro o embrião de uma obra de maior fôlego sobre a guerra colonial, o que constituiria também o desenvolvimento lógico de um tema já tratado por Assis Pacheco na poesia. No entanto, volvidos quinze anos, o romancista ressurge não com uma crónica desse período da história portuguesa contemporânea, mas com uma crónica ficcionada da emigração galega em Portugal desde o último quartel do século passado até aos anos 40: Trabalhos e Paixões de Benito Prada (Ed. Asa, 1993).

Trata-se de um conjunto de histórias construídas em torno de um galego que, fugindo à fome e à miséria, vai para Portugal ganhar a vida. A narrativa tem um fundo verista: Benito Prada é o alter ego literário do avô materno de Assis Pacheco, Santiago Doallo, e muitos dos personagens foram inspirados em familiares seus ou têm um correspondente na vida real.

Também aqui Assis Pacheco não se desviou totalmente do seu rumo poético, dado que já em obras como Variações em Sousa (1984 e 1987, inserida na antologia atrás referida) recolhe nas suas raízes familiares o leitmotiv de alguns poemas de grande contensão emotiva, como "O meu avô não lia versos", em que evoca a mágoa profunda e nunca superada da ruptura com as origens pátrias e rurais, ou o "Soneto aos filhos", em que a diáspora emigratória assume foros de epopeia familiar:

 

"Toda a epopeia da família cabe aqui/ um avô galego chegado a Portugal rapazinho/ outro de ao pé de Aveiro que se meteu/ num barco para S. Tomé a fazer cacau// de filhos seus nasci/ com este pouco de inútil fantasia/ sentida em solidões nas que me vejo/ nu como bacorinho na pocilga// e como ele indefeso e porém quis/ mesmo assim ser mais que o animal/ no tutano dos ossos pressentido// não peço nada usai meu nome/ se vos praz lembrai-me/ o que for costume// mas livrai-vos do luxo e da soberba."

Não é só no conspecto temático que poderemos encontrar, em Trabalhos e Paixões de Benito Prada, afinidades com a poética de Assis Pacheco, mas também na versatilidade do emprego do vernáculo, da gíria, do galeguismo e do castelhanismo, elementos que, trabalhados numa simbiose de lirismo e expressividade satírica, vinculam parte da sua produção poética a uma tradição que remonta às cantigas de escárnio e maldizer galaico-portuguesas. Transposto para a ficção, este atributo permite inserir o romance de Assis Pacheco num género literário importado de Espanha, o pícaro, que mantém estreitas coincidências temáticas com a poesia satírica dos velhos cancioneiros.

Em Portugal este género teve vida efémera, acabando por se diluir na comédia (e sátira social) e na novela de costumes, onde dele encontramos vestígios até aos nosso dias. O nexo entre a literatura de costumes e o pícaro é estabelecido pela tipologia das personagens. Com efeito, inerente ao romance de costumes está a observação do comportamento social dos indivíduos que, integrados num quadro social específico, dele se tornam representativos, adquirindo o estatuto de tipos sociais. Neste contexto, a linguagem assume especial importância, pois é um dos principais elementos de caracterização das personagens. No romance de Assis Pacheco, a linguagem é coerente com a tipologia das personagens: é a linguagem dos amola-tesouras, vendedores de panos e pedintes galegos, transferidos para o contexto português do Estado Novo onde, afinal, o seu posicionamento será sempre marginal.

 

Também aqui Benito Prada tem profundas ressonâncias picarescas, neste efeito de distanciamento entre seres que recusam o compromisso social e uma sociedade marcada pela corrupção, pelo ridículo e pelo provincianismo balofo. A linguagem, nos seus desvios lexicais (gíria, palavra chula, galeguismo), marca o fechamento voluntário num grupo social. Encontramos neste romance toda a galeria de pícaros (boémios, jogadores, ladrões) que, na cena social, representam a afirmação da marginalidade e que, no contexto literário, introduziram um novo discurso narrativo mediante o corte radical com os códigos vigentes, nomeadamente o do barroco: o palavrório alambicado é substituído por uma linguagem mais próxima do quotidiano, de timbre popular, que confere aos costumes uma maior nitidez de recorte e profundidade.

Com este novo romance, Fernando Assis Pacheco confirma, uma vez mais, o seu extraordinário virtuosismo de retratista da sociedade portuguesa contemporânea.

(1) Entrevista ao Público,

2.7.1993

 

navegação.gif (8501 bytes)


© Círculo Cultural das Comunidades Europeias 1993. All rights reserved.